


(As três mocinhas de Glória Perez. Não são iguais?)
Glória Perez gosta de escrever novelas sobre outras culturas e costumes. Além disso, ela é perita em levantar assuntos polêmicos para que possam ser mais discutidos e entendidos.
O que “Explode Coração” (1995), “O Clone” (2001) e “Caminho das Índias” (2009) têm em comum? As três novelas foram escritas pela autora, tratam de culturas estrangeiras: cigana, árabe e indiana, respectivamente, e levantam assuntos polêmicos como o desaparecimento de crianças, clonagem, drogas e esquizofrenia.
Analisando um pouco mais, vamos encontrar outras semelhanças nas histórias da trama de Glória: amores impossíveis, impedidos pelos pais e pela tradição da família; nomes estranhos ao público; triângulos amorosos e desmistificação de preconceitos.
Culturas distantesTrazer para nossas telas culturas que pouco conhecemos é a especialidade da autora. Por meio dos capítulos das três novelas, pode-se observar as crenças de cada povo já citado. Porém, apesar das novelas se passarem nos tempos atuais, as convicções representadas eram de tradições antigas que pouco existem nos países, mas existem.
Em “Explode Coração”, Dara, vivida por Tereza Seiblitz, vivia dividida entre o amor de um empresário bem-sucedido, Júlio Falcão (Edson Celulari) e a insistência de sua família para que se una ao homem que escolheram para ela, o cigano Igor (Ricardo Macchi) – eternizado por seu jeito “mecânico” de atuar.
Em “O Clone”, a história não foi diferente. Jade (Giovanna Antoneli) amava Lucas (Murilo Benício), mas acaba se casando com Said (Dalton Vigh), seguindo os costumes mulçumanos, e com ele tem uma filha, Kadhija (Carla Diaz). Mas, tempos depois, Said decide se unir à outra mulher – já que a poligamia era aceita na cultura árabe – e casa-se com Ranya (Nívea Stelmann) e pede para que o amigo Zein (Luciano Szafir) se case com Jade por dois dias, para que ela possa voltar para ele depois. O amigo se apaixona e é mais um disputando o amor da mulçumana.
Na atual “Caminho das Índias”, temos um triângulo formado por Maya (Juliana Paes), Bahuan (Márcio Garcia) e Raj (Rodrigo Lombardi).
Assuntos polêmicos e utilidade públicaQuem não se lembra de Odaísa (Isadora Ribeiro), da novela “Explode Coração”, que tinha um filho desaparecido e recorria ao movimento das “Mães da Cinelândia”, no Rio? Pois bem, o assunto do desaparecimento de crianças passou a ser mais divulgado nos meios de comunicação e virou debate público, após apresentação na novela.
Além disso, as fotos das crianças procuradas eram mostradas durante a novela – o que ajudou a achar 64 desaparecidos.
Já em “O Clone”, a discussão sobre a clonagem foi o ponto alto da novela. Paralelo a isso, a dependência química também foi retratada por meio dos personagens Mel (Débora Falabella), Nando (Thiago Fragoso) e Regininha (Viviane Victoretti). No final da trama – marcada por cenas como a de Mel bebendo perfume para não se drogar – os personagens conseguem se livrar do vício, apoiados pela família de classe média.
Em “Caminho das Índias”, a discussão fica por conta de duas vertentes da psiquiatria: a esquizofrenia e a psicopatia. Tarso (Bruno Gagliasso) representa a primeira e Yvone (Letícia Sabatella), a segunda.
Além de levar estes temas e proporcionar discussão, a autora promove a chance das pessoas os conhecerem e, assim, reverem seus preconceitos.
O que me incomodaÉ louvável a forma como Glória Perez consegue envolver o público com suas tramas, mas uma coisa me incomoda: ver tantos personagens e histórias parecidas em três novelas distintas.
Será que a história do amor impossível ainda se aplica a uma sociedade como a nossa, mesmo em culturas diferentes? Não seria melhor retratar amores mais reais, com dificuldades reais?